domingo, 3 de abril de 2016

Amor Maduro



Amor maduro
É a paixão no outono da vida.
É a espera aconchegante que embala o grisalho sono.
É a tranquilidade com que se aguarda a revelação.

O amor maduro não se precipita, não!
Pois é a doce acalmia que se sente
mesmo quando a lágrima serpenteia
pelas rugas da vida!


Amor maduro
é um desfrutar suave
do sentimento que não se sabe correspondido.
É amar pelo prazer de amar,
sem vergonha,
sem angústia,
nem sofrimento.

O amor maduro
é ler no brilho dos olhos o palpitar do coração,
é a serena certeza que as parte se encontrarão.

O amor maduro
é o princípio supremo da compreensão.
Lúcia Gonçalves (abril 2016)

terça-feira, 22 de março de 2016

O Despertar da Primavera

                                          Foto de: Lúcia Gonçalves

   

É abril.
A alvorada nasce radiosa.
Gotículas de orvalho resvalam
como  pérolas roliças sobre a areia.
As cores ganham vida e alegria própria
A brisa morna beija-me as faces.
As pálpebras deslizam
como que querendo suster
a lágrima que se emociona.
Balanço o corpo ao sabor
da sinfonia  vinda dos ninhos
 abrigados nas pernadas ressequidas
da velha figueira.
Saboreio e mastigo os sabores
que avivam as memórias gustativas.
Inalo sofregamente
o matizado dos aromas.
As narinas dilatam-se.
O peito enche-se dos verdes e doces cheiros.
A um ritmo compassado
o sol vai alongando
os raios dourados pela planície.
A natureza espreguiça-se
longa e demoradamente
Sorri-me.
Sorriu-lhe.
Curvo-me.
Suspiro perante a dádiva da vida.
Rejubila-me a sua vulgar beleza.

Lúcia Gonçalves (Abril de 2014)

sábado, 19 de março de 2016

A Carta que não tive oportunidade de escrever ao meu pai.


- Quem tu pensas que és para teres partido sem avisar?
Que rompes as promessas de castigo!
Que furas os horários maternos de estudo!
Que roubas o comando da TV!
Que combinas num segredo paterno
a primeira saída noturna,
mas que me manterás numa redoma de vidro!
E te zangarás quando der o primeiro beijo.
Que chorarás comigo, desalmadamente
a caminho do altar.
Pai, tu nunca soubeste dizer não!

Pai, Tu és:
A razão de eu vestir uma t-shirt quando lá fora a neve cai,
ou de ir de casacão quando o calor aperta.
A melhor forma de eu apanhar uma constipação!
A melhor desculpa para não comer a sopa,
ou ficar a ver um filme até mais tarde.
A melhor companhia para ir ao meu primeiro concerto.
Na tua banal imperfeição
serás sempre o meu herói
e eu a tua menininha

Por ti:
Serei corajosamente paciente,
inteligente e decidida.
Aprenderei a suportar a tua Partida.
Não desistirei dos meus sonhos.
Com certeza tornar-me-ei mulher.
Viverei apaixonadamente,
perpetuando o teu nome.
Chegarei ao fim da meta
Reclamarei à providência divina um anjo da guarda.

Pai, acredita que:
que o coração bate depressa,
quando no silêncio da noite,
no momento em que a realidade
 se confunde com as lembranças,
chamas por mim.
Que no teu abraço o medo desaparece.
Devo-te cada sopro, Pai!
Sei que zelarás por mim para lá da eternidade.
Num simples e prolongado toque de dedos
sentirei o teu conforto nas horas difíceis.
PAI,
AMAR-TE-EI saudosamente
até ao fim dos tempos.

Lúcia Gonçalves 
(dedicado ao pai Humberto Gonçalves que partiu prematuramente)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quando colocamos AMOR naquilo que fazemos e nos rodeamos de quem nos AMA, a magia acontece!

13 de fevereiro - apresentação "O Monte das Tílias" Casa do Alentejo

“Faz de conta que sou Deus”
A escrita é uma caminhada dolorosamente excitante cujo longo período de aceitação é muitas vezes confundido com algum tipo de demência que faz ver vidas onde elas não existem, num trabalhar contínuo da imaginação que frequentemente desprende o escritor da realidade que o rodeia e exige a sua participação. Dolorosos também os isolamentos a que tem de se submeter para que as ideias possam vaguear à vontade ou mesmo confrontarem-se umas com as outras em duelos sugadores de energia.
Quem escreve romances é um apaixonado pela vida e suas relações. Mas é um AMOR tal que não se satisfaz unicamente com vida real. Esse amor é voraz de sentimentos. Um escritor não consegue satisfazer a sua paixão com os fatos do que acontece aqui e agora. Quer sempre mais. É um ser real, aprisionado num corpo físico cuja imaginação funciona como um mecanismo autónomo e persistente alimentado de toda a informação que os sentidos recolhem da realidade.
Perante a frustração constante de que a vida vivida não lhe satisfaz na plenitude, que o espaço o aprisiona de forma asfixiante e quase mortal a solução é encontrar uma linha que mantenha o equilíbrio entre a realidade e as vidas que a imaginação gera numa teimosia tal que podem conduzir ao alheamento total, felizmente temporário, da realidade. Essa linha é a escrita.
Quando este ser que se encontra em conflito constante com a sua imaginação se apercebe da riqueza desta, torna-se um escritor, um construtor de vida. Aceita ser um Deus.
A aceitação desta dupla realidade traz consigo a paz, a felicidade e a sabedoria de brincar com os próprios sentimentos e com o dos outros. Porque um escritor de romances é também um observador de vidas. Quando isso finalmente acontece é como se o escritor tivesse descoberto o botão que faz girar o mundo real e o da ficção.
Muitas são as fontes de inspiração. Podem ser imagens que apaixonam. Locais onde nascem personagens. A letra de uma canção que o faz imaginar um momento em particular para que ela possa ser verdadeiramente desfrutada. Pode ser um aroma, uma cor, um sabor, um cheiro e um toque que provocam no escritor, nas personagens e nos leitores as mesmíssimas emoções.
No fim do processo o escritor é um Deus criador para quem muitas vezes a vida gerada na sua imaginação se torna real a partir do momento em que passa a estar escrita.
Um escritor ama e odeia as suas personagens. Com elas se apaixona, sofre, emociona entrega, chora, grita e combina que sentimentos provocar ao leitor, numa conspiração quase verdadeira. As personagens tornam-se tão reais que o escritor passa a vê-las nos locais onde as colocou.
Lúcia Gonçalves 















quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

"O Monte das Tílias" num encontro com jovens leitores


A manhã de hoje terminou de forma bastante animada e aprazível, quer para a escritora Lúcia Gonçalves, quer para os jovens e seus professores que decidiram aceitar o convite da professora  Marcolina, deslocando-se até ao auditório da Escola Mouzinho da Silveira, Portalegre. Durante uma hora a conversa foi em torno da escrita e da leitura. O ponto de partida, claro está, foi o romance "O Monte das Tílias". Obrigada por mais este FANTÁSTICO encontro.